Ficarias incrédulo se não visses o que desapareceu. Deixavas para trás o que por detrás de ti ficou. Foi no exacto momento de um x-acto dormente em que a voz se calou. E as sombras são a assombração que se esconde onde as sombras estão...
Mais um cigarro... E um cigarro a mais é um dia a menos e um dia a mais é um cigarro a menos e menos um dia e mais uma noite e mais uma beata que fica e o fumo que se desvanece no ar.
"Perdoamos com facilidade àqueles que nos aborrecem, mas não conseguimos perdoar àqueles a quem aborrecemos"
"Quase todos os homens vivem inconscientemente no tédio. O tédio é o fundo da vida, foi o tédio que inventou os jogos, as distracções, os romances e o amor."
"Se os macacos chegassem a experimentar tédio, poderiam tornar-se gente."
Cuspo as palavras que não consigo dizer. Ejeculo o prazer que não consigo sentir. Creio na dúvida do deus que não tenho. Transpiro o calor que não posso suar. Quem sou? O que sou? O que tenho que mais falta me faz? O que me falta para ser incompleto? Sou tudo aquilo que nunca fiz por mim. Sou o princípio sem fim. Sou a espera e a demora. Sou o antes e o agora. Sou o Vazio. Sou a água que secou de um rio. Sou a nascente da rua. Sou a vertigem da Lua.
Acorda depressa que o sonho está a acabar. Levanta-te! Desperta! Lava a cara que te suja o amanhecer! O sonho terminou. Nada há a fazer. Não és tu que pensas. És tu que sentes. Sou só eu que vomito as minhas ideias dormentes. Hoje e amanhã são pequenas realidades que sonho acordado na mentira das verdades. Quero saber que já não sei o que fazer. Quero desistir do futuro escondido num quarto escuro. E a cinza protege-me. E o fumo aquece-me. E o vento aborrece-me. E o barulho...o barulho...são só ruídos. Ruídos barulhentos como gemidos.
Ontem parece que foi ontem mas hoje estou preso no presente. Prisão presente no ventre da prisão de ventre para sempre. Cólicas e espasmos temporais. Agonias e afrontamentos frontais. Diagonais paralelas. Dias iguais divididos em sequelas. O imaginário escreve as palavras que não se pensam. Os textos lêem as frases que não se escrevem. O abstracto é exacto. O tédio é o remédio.
Adivinha quem caiu de costas e bateu de frente com a alma no asfalto. Adivinha quem foi que gritou mais alto. Adivinha quem foi. Foi um acidente. Tinha lá gente mas não havia ninguém. O acidente matou a vida de alguém.